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André Veríssimo, averissimo@mediafin.pt, Jornal de Negócios
Embora com estilos diferentes, Lula da Silva e José Sócrates convergiram na condenação da actual ordem económica. Chegou o tempo dos políticos, dizem.
José Sócrates e Lula da Silva comprometeram-se ontem a concertar as posições de Portugal e do Brasil no plano internacional. O acordo foi firmado na cimeira de chefes de Estado que decorreu ontem na cidade de Salvador, no estado da Baía, e de imediato posto em prática. Em uníssono, os dois líderes defenderam uma mudança profunda no sistema financeiro internacional como resposta à crise. Depois do falhanço dos mercados, é a vez políticos.
Lula da Silva foi o primeiro a falar na declaração final da IX Cimeira Luso-Brasileira. O lugar escolhido, a Igreja da Misericórdia em Salvador, primeira capital do Brasil, dava o mote para o elogio mútuo e o desejo de "assentar em bases cada vez mais sólidas" a parceria secular entre os dois países.
De seguida, o presidente brasileiro deferiu um ataque, sem misericórdia, aos grandes bancos. "Os mega bancos, que tantas vezes tentaram orientar a governação dos países pobres e vêm dizer os que têm mais risco e menos risco, percebemos agora que andaram a dar palpites sobre a economia dos outros sem saber o que se passava dentro deles próprios".
Para Lula a crise representa a falência da visão do liberalismo de mercado mais agressivo e coloca responsabilidades acrescidas ao Estado. "Houve tempos em que os políticos andavam de cabeça baixa, porque era o mercado que fazia tudo", afirmou. Agora, "é chegada a hora dos políticos entrarem em acção". E a prioridade é: "Abolir de uma vez por todas o casino em que se transformou o sistema financeiro internacional". O que exige uma "reforma urgente do sistema financeiro internacional".
Sócrates trouxe uma mensagem semelhante, embora com menos metáforas. "Estavam errados os que tinham um pensamento único, em que o mundo perfeito era o que correspondesse aos interesses próprios das instituições", afirmou o primeiro-ministro. Agora, é tempo de mudança. "Esta é a oportunidade para construirmos uma nova ordem económica", afirmou o primeiro-ministro, defendendo uma "globalização mais justa", e o reforço da legitimidade das instituições internacionais. Um papel que cabe aos governos. "Tem razão o presidente [Lula da Silva], chegou mesmo a hora da política".
Por coincidência, ou nem por isso, não havia banqueiros nos bancos de igreja onde se sentaram os ministros e empresários que acompanhavam a comitiva dos dois governos. Com a imagem de nossa senhora como testemunha, foram assinados dois acordos entre os dois estados, um sobre a concertação de posições no plano internacional, e outro sobre relações consulares e emigração. Já as empresas, assinaram sete memorandos, envolvendo desde a energia e obras públicas ao turismo e à indústria.
Os dois líderes fizeram também um apelo para a continuação das negociações de Doha, no âmbito da Organização Mundial de Comércio, de forma enviar um sinal de confiança à comunidade internacional. Lula apelou também a que "se desenterrem as negociações para os acordos de comércio entre o Mercosul e a União Europeia".
* o jornalista viajou a convite da PT